terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Holocausto Brasileiro.




Livro: Holocausto Brasileiro
Editora: Geração Editorial, São Paulo, 2013
Autora: Daniela Arbex

Da Autora:
Jornalista premiada com mais de 20 prêmios nacionais e internacionais , recebeu por Holocausto Brasileiro , os prêmios: Vladimir Herzog, Knight International Journalism Award e IPYS de melhor investigação jornalística da América Latina e Caribe.
Iniciou a apuração das reportagens que ,arcariam o nascimento do livro quando seu filho estava com apenas 4 meses. Mesmo diante do impasse da maternidade, seguiu investigando pois sabia que seu filho se orgulharia dela.
Com 44 anos, é Repórter Especial do Jornal Tribuna de Minas há 20 anos...
Mãe do Diego.
Recentemente escreveu mais um best seller : COVA 312 cujo tema é a ditadura. Leremos em breve!

Do Livro:
Difícil de imaginar o que é descrito , muito bem inclusive, no livro por Daniela Arbex.

60 mil mortos no maior hospício do Brasil.

Impossível imaginar que pessoas foram submetidas a barbaridades, equiparadas sabiamente às barbaridades nazistas, sem estarem efetivamente sendo comandadas por Hitler.

Um livro de leitura pesada, por meio do qual tomei conhecimento das atividades do Hospital Colônia em Barbacena/MG. Um hospital psiquiátrico para onde eram encaminhadas pessoas com qualquer diferença que incomodasse alguém... Alguém, nesse caso,  podia ser qualquer um ...
Não  havia necessidade de avaliação médica para encaminhamento ao Colônia. Pessoas com importância política,  com muitas posses, delegados enfim, tinham poder de assinar ou solicitar que seu "problema" fosse encaminhado ao Colônia.

Mulheres cujos maridos desejam viver com suas amantes, jovens grávidas precocemente, jovens cujos bebês em suas barrigas eram de seus patrões,  meninos tímidos, pessoas tristes, pessoas contestadoras, pessoas sem documentos, ladrões...... Todos juntos em um hospital psiquiátrico. Local onde todos eram tratados como animais. Ninguém, nem doentes mentais, deveriam ser tratados como era o padrão do Colônia. Ninguém deveria ter passado por tamanhas atrocidades.

Lembra dos Campos de concentração? As camas feitas com palha? Pessoas mortas espalhadas no chão? Ratos... falta de comida...falta de higiene...banhos frios... espera fora dos pavilhões com frio de rachar? Então, o mesmo tratamento foi dado a tantas pessoas que moraram no Colônia durante anos.
Choques elétricos eram ministrados em pessoas : ora para acalmar, ora para calar contestadores.... muitas vidas foram perdidas nesses choques. Funcionários sem experiência na função (dar choques) tinham no choque elétrico o "teste" para serem promovidos ou não. Muitos não aguentavam assistir as pessoas se debatendo e muitas vezes morrendo na sua frente...

Banhos gelador na calada da noite como castigo (de quê? sendo que o castigo maior era estar ali?!),
O livro detalha perfeitamente os horrores do Colônia e nos traz algumas histórias de pacientes e funcionários.

Temos a história de João Bosco que foi separado de sua mãe aos 2 anos de idade. Mesmo sua mãe desejando estar com ele, a administração do Colônia o enviou a um orfanato e ameaçou sua mãe, Sra Geralda Siqueira, dizendo que se ela voltasse a procurá-lo seria novamente internada no Colônia. Nem preciso dizer que a vida de Dona Geralda foi sofrida por sempre se perguntar se seu filho estaria ainda vido, se estaria alimentado, em boas condições.
Dona Geralda foi abusada por seu patrão, por isso engravidou. Seu filho durante sua estadia em orfanatos, passou por momentos bem difíceis....

Tem a história de Dona Sueli Rezende, caçula de 7 irmãos, que por ter ataques de epilepsia foi afastada do convívio com os pais. Aos 7 anos morava com um tio e trocava favores sexuais em troca de merenda. Aos 8 anos foi entregue ao juizado de menores e encaminhada ao Oliveira. Em 1971 foi encaminhada ao Colônia e perdeu completamente o contato com sua família. Do Colônia ela saiu morta em 2006 com 50 anos sem poder realizar o sonho de rever suas duas filhas nascidas no Colônia: Débora e Luzia.
Toda a violência com que foi tratada , Sueli devolvia aos funcionários e demais pacientes. Arrancou orelha de paciente, comeu pomba do pátio.
Débora , sua filha, que não sabia que sua mãe era Sueli Rezende e nem que ela estava no Colônia, quando teve essa revelação foi atrás da mãe.... infelizmente era tarde demais.

Todas as histórias mexeram comigo.... me fizeram chorar (muito)....

A medicina da época permitia que seres humanos fossem tratados como bichos ....

As pessoas que faleciam no Colônia tinham, muitas vezes, seus corpos vendidos para as universidades locais.  Entre 1969 e 1980 foram vendidos mais de 1800 corpos para faculdades de medicina do país. Corpos de pessoas que , sem autorização de suas famílias eram transformados em indigentes e vendidos....
O Professor Ivanzir Vieira testemunhou a chegada de um lote de cadáveres e sentiu uma profunda tristeza e indignação. 

Ronaldo Simões Coelho foi um dos nomes que contestou o modelo de psiquiatria. Desejava humanizar os tratamentos. Coube a ele, em 1973, ciceronear Foucault durante sua estadia em Belo Horizonte. Além dele temos Halley Bessa, Emilio Grinbaum - defensores da humanização da psiquiatria e medicina psicossomatica.

Ao ler o livro vamos nos indignando cada vez mais. Muitas pessoas foram coniventes com o que acontecia no Colônia...
Eu me pergunto como os médicos conseguiam seguir suas carreiras sabendo que não estavam tratando aqueles pacientes e sim os matando aos poucos....

Os funcionários, na maioria contratados sem experiência, eram treinados pelos antigos que já passavam a carga "do não se importe com os pacientes" como se fosse algo normal.

Hoje vivemos em um novo momento. O tratamento de doenças mentais tem outras bases voltadas a tornar o ser humano, que por ora esta privado de sua lucidez, em um ser humano lúcido novamente e não, como era na época do Colônia, torná-lo um cadáver.

Um livro instigante e forte. 

Algumas citações marcantes - só algumas mesmo, pois tantas me marcaram que se eu citar todas, praticamente digitarei o livro completo....:

Pág: 35:
"Funcionário aposentado do hospital, Geraldo Magela Franco, sessenta e sete anos, admite que o tratamento de choque e o uso de medicações nem sempre tinham finalidade terapêuticas, mas de contenção e intimidação."

Pág. 37-38:
"A colega Maria do Carmo, que também era da cozinha, foi a primeira a tentar. Cortou um pedaço de cobertor, encheu a boca do paciente, que a esta altura já estava amarrado na cama, molhou a testa dele e começou o procedimento. Contou mentalmente um, dois, três e aproximou os eletrodos das têmporas de sua cobaia, sem nenhum tipo de anestesia. Ligou a engenhoca na voltagem 110 e, após nova contagem, 120 de carga. O coração da jovem vítima não resistiu. O paciente morreu ali mesmo, de parada cardíaca, na frente de todos. Estarrecidas, as candidatas se mantiveram em silêncio. Algumas lágrimas teimaram em cair naqueles rostos assutados, mas ninguém ousou falar."

Pág. 72:
"Ivanzir surpreendeu-se com o que viu. No pátio interno da faculdade havia dezenas de cadáveres espalhados pelo chão em grotescas posições. Parecia que um maníaco sexual havia passado por ali. Os corpos das mulheres , com as saias ou camisolas erguidas, pernas abertas, desnudando sua intimidade. Os homens com as calças e cuecas - sujas umas, imundas outras - baixadas. As fisionomias eram pálidas, esquálidas. Barbas crescidas, cabelos desgrenhados, pareciam egressos de um manicômio.
O cheiro não deixava dúvida de que estavam mortos havia dias. O farmacêutico ficou atônito."


Pág. 216:
"Sei o que vocês estão fazendo. Tirando fotos de todo mundo. Assim, quando a gente morrer, as pessoas vão saber que estivemos aqui."

"Como a sociedade permite que as famílias e a medicina despejem pessoas nesse depósito de lixo humano?"

"O cheiro deste lugar é indescritível. É o cheiro de suor, de fezes, de sofrimento, de gente amontoada, de falta de higiene."


Leiam! Me contem o que acharam!




segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Eu sobrevivi ao holocausto. O comovente relato de uma das últimas amigas vivas de Anne Frank.



Livro: Eu sobrevivi ao holocausto. 
           O comovente relato de uma das últimas amigas vivas de Anne Frank.
Editora: Universo dos Livros - São Paulo, 2015
Autora: Nanette Blitz Konig

Da autora:
Nanette Blitz Konig é de origem Holandesa e sobrevivente do holocausto. Mora no Brasil desde o final da década de 1950 onde educou seus filhos junto com o marido John Konig.
Desde 1999 ministra palestras em pról da memória do Holocausto contando sua história e dos Judeus na segunda guerra mundial.
Foi a última amiga a conversar com Anne Frank antes de seu falecimento.

De setembro de 1943 até Maio de 1945, Nanette viveu em campos de concentração..


Do livro:
Quando lemos sobre o holocausto acreditamos, muitas vezes , que veremos mais do mesmo.
Nanette Blitz Konig, em seu livro: Eu sobrevivi ao holocausto, descreve de uma forma extremamente profunda seus dias desde o início da ameaça nazista aos judeus, seus dias no campo de concentração, a morte de seu pai, a separação da família, sua libertação, seu esforço psicológico (inclusive atualmente) para manter viva a lembrança  porém não deixar a carne viva das feridas sangrando.

De acordo com Jeanne Marie Gangnebin devemos manter vivas essas lembranças para cada geração de forma que não sejam esquecidas as atrocidades e jamais sejam repetidas. Sem acesso à história corremos o risco de cometer os mesmos erros....

Em seu livro, Nanette descreve em detalhes sua vida antes, durante e depois. É com muita emoção que a leitura segue....imagino que para ela deve ter sido dolorido escrever o livro e seguir palestrando em escolas, como faz atualmente. As palestras são importantes pois mostram aos jovens um pedaço da história que, por ser tão distante, pode ficar esquecido.

Nanette é uma sobrevivente. Lutou muito ... por várias vezes passou bem perto da morte e, certa vez, talvez até por conta de seu descaso, afinal já que havia perdido sua familia e esperança, desistiram de executá-la.

É difícil imaginar que houveram tantas pessoas mortas e que a situação, tão degradante como foi, era apoiada por pessoas que também tinham famílias.... Pessoas eram deixadas no frio, sem comida.....
Pessoas morreram, mesmo quando libertadas, por se alimentarem..... Imaginem o estrago em seus corpos e suas vidas?!

Não sou capaz de compreender como uma garota , que era Irma Grese, pode mesmo diante da condenação, assumir o que fez e dizer que faria novamente.  Irma Grese foi uma das guardas mais cruéis da SS .

E Josef Kramer que, ao ser questionado sobre seus atos, sequer demonstrou um pouco de arrependimento alegando que apenas cumpria ordens.

O horror é descrito de uma forma emocionante por Nanette. No livro ela mostra as consequências do regime imposto por Hitler que, apesar de sua eleição democrática em 1933, como chanceler da Alemanha, chegava com uma ideologia de superioridade de raça muito perigosa. Com campanha publicitária muito envolvente, trabalhada por Joseph Goebbels , uma grande parte da população Alemã apoiava o Führer, inclusive crianças. (Impossível de imaginar).

Alemães , apoiadores de Hitler, acreditavam que os Judeus eram sujos , trariam doenças, deveriam ser exterminados....

Uma leitura envolvente e emocionante. Muito emocionante! Por vezes o ritmo de leitura diminuía, tamanho choque com a situação narrada... Era uma forma do meu inconsciente fazer 1 minuto de silêncio pelas vítimas daquela atrocidade lida.

Vale a pena cada página. 

Algumas passagens marcantes:

Pag.7
"Infelizmente, não existe botão delete na minha mente. Gostaria de apagar o que vi e vivi, especialmente, a sensação de sofrimento."
" Como o ser humano pôde ser capaz de deixar isso acontecer? Como o ser humano pôde ser capaz de tema já brutalidade e desamor?"
"As histórias dos Campos de concentração fazem adultos terem pesadelos como se fossem crianças indefesas."

Pag. 47
"É incrível como essa situação faz com que seu medo se multiplique à medida que outras pessoas que você ama tornam-se tão indefesas quanto você. "

Pag. 49:
"Desde as primeiras impressões que tive em Bergen-Belsen, me chamou a atenção o fato que não havia passarinhos voando e cantando. Era muito curioso, pois estávamos em uma região bem arborizada, com muito verde no verão, e mesmo assim a natureza parecia não dar sinal de vida. Mas, também, que tipo de canto seria inspirado por esses arames farpados, torres de vigilância, armas e rostos amedrontados? Sem dúvida, não seriam as belas canções dos pássaros em liberdade. A natureza manifestava sua opinião, sua consternação em relação ao que acontecia em Bergen-Belsen, em relação ao que acontecia naquela época terrível."

Pag. 51:
"Estávamos em contato com verdadeiros robôs que seguiam cegamente a estratégia e doutrina de Hitler."

Pag. 91:
"Uma das coisas que eles queriam esconder em Auschwitz, além das câmaras de gás, eram os experimentos macabros realizados - experiências médicas desumanas que, em muitos casos, resultavam na morte dos "pacientes". Josef Mengele, conhecido como "anjo da morte" pelos prisioneiros do campo, realizava experiências com o objetivo de aprofundar as questões racistas e ideológicas que faziam parte da doutrina nazista."

Pag. 116:
"Eu devia ter um olhar tão indiferente, tão isento de qualquer sentimento diante daquele ser brutal, que a sua graça acabou. Era isto que ele queria: que implorasse pela minha vida, morresse de medo na sua frente e, assim, como um grand finale, ele me mataria."

Pag. 135:
"Tomar banho era uma sensação maravilhosa! A água era quentinha! Há quanto tempo eu não tinha aquela sensação de água quente escorrendo pelo corpo? E também toalha e sabonete! Que maravilhosa sensação!"

Pag.149:
"O governo da Holanda não ajudou nenhum dos sobreviventes, ninguém prestou nenhum auxílio mesmo quando todos os nossos bens haviam sido confiscados - ou melhor, roubados de nós."

Pag. 162: 
"Lembro que uma vez eu passei um tempo dividindo o quarto com minha prima surda e ela me disse: "Você quer saber o que você fala durante a noite?". Eu tinha muitos pesadelos que se passavam em Bergen-Belsen. Era algo que não saia da minha cabeça. Essa minha prima, mesmo não podendo escutar o que eu falava à noite, teve a sensibilidade de perceber que eu tinha muitos sonhos angustiantes. Os pesadelos eram parte do cotidiano de todos os ex-prisioneiros. As nossas memórias dos tempos de guerra eram muito traumatizantes, e os nazistas haviam conseguido roubar nossos sonhos bons."

Pag. 186:
"Eu continuo falando em nome daqueles que hoje não podem falar, em nome daqueles que perderam a vida de uma maneira tão brutal e incompreensível naquele período em que a doutrina nazista dominava a Europa."

Pag. 190: 
"Escrevo este livro em pról da liberdade e da tolerância."